Entrevista: Mulheres na Computação

“Não importa se é homem ou mulher, o importante é ser bom profissional.”, “Ah, mas é uma questão de vocação e de gosto.”, “Meninos têm mais vocação para as ciências exatas.”, “Isso é vitimismo, precisa ir à luta e ser bom profissional.”

Foram algumas das frases que ouvi, de homens, quando comentei que gostaria de aproveitar o Dia Internacional das Mulheres para escrever sobre as mulheres da computação.

Quem vos escreve é uma mulher completamente de ciências humanas (história e antropologia), que topou a loucura de tentar entender o povo da computação e embarcou como co-fundadora da Vibbra!. A questão é que no trabalho que tenho feito de seleção de profissionais de TI, são pouquíssimas mulheres que se candidatam, até porque são poucas as mulheres dentro da TI, 20% segundo a Pesquisa Nacional por Amostra em Domicílio.

Que tal ouví-las?

Conversei com três mulheres super poderosas da computação.

  • Uma Empresária de 26 anos, a Camila Achutti.
  • Uma Doutora em Ciências - Informática, de 33 anos, que é Oficial da Força Aérea Brasileira (FAB), a Marília Guterres Ferreira.
  • E outra que é uma Cientista de Dados de 30 anos, que trilhou uma carreira corporativa, a Larissa Lautert.

A escolha de carreira

Marília sempre foi fascinada pelas áreas de exatas, especialmente matemática e lógica. Em 2002, durante o 3o ano do ensino médio, ao ter que optar por um curso de graduação para o vestibular, os aspectos de inovação e de receptividade do mercado aliados à sua afinidade com as ciências exatas guiaram sua escolha por Ciência da Computação.

Já Camila tinha o exemplo dentro de casa, seu pai trabalhava com programação e para ele isso sempre foi uma ferramenta para resolver problemas e mudar o mundo.

“Acho que eu peguei isso dele. Quis fazer parte desse clã que vai mudar o mundo através dos bits, mesmo sem saber direito o que isso significava.”

A Larissa era apaixonada por física, entrou no curso e percebeu que o mercado de trabalho não era favorável no Brasil. Decidiu pela área de TI porque curtiu programar já no início do curso e, assim como Marília, percebeu que o mercado estava crescendo.

A faculdade

A Marília é uma das pessoas mais qualificadas que conheço e lá no início já tinha entendido que as áreas de exatas supostamente eram menos atrativas para as mulheres, que entravam poucas mulheres no curso de Ciência da Computação e que muitas ainda desistiam. Na turma dela (2004) ingressaram quatro mulheres, o que foi considerado um número record.

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Crédito: 2T Hudson Marques

Por isso, sentia que precisava explicitar que “apesar de sermos poucas, tínhamos muita qualidade: entrei em 1o lugar pelo vestibular e saí em 1o lugar pelo coeficiente de notas, como Aluna Destaque da Sociedade Brasileira de Computação (SBC).”

Apesar disso, pessoalmente, se sentia deslocada no meio.

Demorou para entender e para aceitar que muitas de suas características “diferentes das do grupo em geral, eram legítimas e faziam parte de quem era como mulher. Talvez, em um ambiente com maior representatividade feminina, esse sentimento de não pertencimento não teria sido tão significante.”

A Camila, é daquelas pessoas que encanta na fala e no brilho do olho, foi lá e fundou a Mastertech, para mostrar que computação precisa ser uma área acessível. Na faculdade ela conta que era de praxe ser minoria e que para ela isso sempre foi como andar com um holofote na cabeça.

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Conta que “existe uma pressão grande em olhar pro lado e não ver ninguém como você, parece que tudo te mostra que você não merece estar ali.”

O trabalho

No mercado de trabalho, as mudanças começam a ser sentidas embora a pressão continue.

Segundo a Camila “você se sente representando um gênero. Antes de qualquer coisa você é mulher, então no seu menor erro você tem que escutar: 'Também, tinha que ser mulher'."

Já para Larissa, que além de mestre em Ciência da Computação, trilha uma admirável carreira em TI e hoje trabalha na Softplan, tanto na faculdade quanto no trabalho ela sempre se sentiu respeitada e tratada com igualdade. Na equipe técnica que trabalha hoje, 30% são mulheres, porém, reconhece que é um valor bem acima da média.

Acredita que essa diversidade é positiva, pois quanto mais variados forem os backgrounds das pessoas, maior a diversidade de ideias e pontos de vista, afirma. Além disso, sente que a representatividade feminina é requerida em eventos de programação e tem atuado principalmente na comunidade da linguagem de programação Python.

Na FAB, a Marília conta que das seis posições para analistas de sistemas no ano, quatro foram preenchidas por mulheres.

“Profissionalmente, não sinto diferenciação no tratamento originada no gênero; somos todos militares de farda, desempenhando as funções inerentes ao posto. Tecnicamente, lideramos equipes de desenvolvimento de software e, militarmente, lideramos equipes para a defesa e segurança da unidade militar. Na FAB, sempre recebi respeito em retorno ao meu trabalho.”

A importância e os desafios das mulheres na computação

Um dos principais desafios é o baixo número de mulheres entrando em cursos relacionados à computação.

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“Enquanto continuar assim, provavelmente a área será vista como carreira para homens. Para mudar esse cenário, participo do projeto InspirinGirls, que leva mulheres de tecnologia e empreendedorismo até as escolas para apresentar suas profissões às alunas. A maioria delas nunca havia pensado em seguir esse caminho, e passam a considerar após a conversa. Também há o Technovation Challenge, em que meninas de 10 a 18 anos desenvolvem um aplicativo que resolva um problema social. Com essas iniciativas, pretendemos aumentar o número de meninas interessadas em carreiras na tecnologia.”
Conta Larissa.

Como líder, Marília acredita que os desafios a serem enfrentados futuramente pelas mulheres na computação, e em geral, serão predominantemente culturais, relacionados à desconstrução de crenças sociais.

“Por exemplo, o desafio de lidar com os homens nas posições mais altas das organizações, os quais terão que se adaptar a trabalhar com cada vez mais mulheres nas mesmas posições; e um desafio dentro de nós mesmas, as quais teremos que ter cada vez mais consciência da nossa capacidade e de que se nós quisermos maiores salários e melhores posições, nós temos o direito de buscar e o dever de exigir isso.”

Para Camila, nós precisamos de diversidade para resolver os problemas que não estão sendo resolvidos.

“Me incomoda ter que apenas consumir o que o menino branco do Vale do Silício faz e ponto. Achar que não tem mais tempo para a gente aprender.”

Por hoje desejamos que mais mulheres possam estar onde elas quiserem e querer estar em cargos como das nossas super mulheres seja uma opção para todas!